COL-FI [COLLAGE FICTION]

LUÍS ALEGRE : 2022-09-17

17 SETEMBRO A 22 OUTUBRO DE 2022 : PINTURA

Lo-fi é a forma abreviada de low-fidelity (baixa fidelidade), expressão vulgarmente usada para designar a qualidade ou a falta dela numa produção musical. Essa desqualidade integra as imperfeições que maioritariamente têm origem numa gravação ou na performance e que se tornam audíveis, por vezes sem querer, mas por outras como opção estética e formal deliberada, podendo assumir-se como um estilo (lembremos a música punk e a sua difusão em cassetes ou a música DIY).


Os efeitos provocados na “fidelidade” dos sons ou produções musicais sofre alterações, mais ou menos profundas, a cada momento em que surgem novas técnicas de gravação, facto que torna o “lo-fi” algo que não forma um padrão uniforme e imutável ao longo do tempo.


Obviamente que ao “lo-fi” se contrapõe o “hi-fi” (alta-fidelidade) e por isso uma espécie de primitivismo técnico em oposição à perfeição “brilhante” das mais recentes formas de capturar, registar e disseminar som/música.
Em col-fi [collage fiction], a apropriação dessa expressão gráfica, mas também a referência às imperfeições é uma evidência estratégica fundamental, facto que torna todos os trabalhos numa concretização paradoxal, no sentido em que a sua construção resulta num registo de aparência destrutiva.


Como nos revela a história da arte, a colagem tem raízes no dadaísmo europeu (início do século XX) e com a passagem do tempo torna-se numa das técnicas importantes do designado modernismo primitivo. Nesse sentido, as minhas colagens não visam qualquer pretensão pioneira ou original. Na verdade elas são até motivadas por uma abundante e exaustiva disseminação destas estratégias estéticas e formais ao longo dos tempos e, sobretudo, na contemporânea cornucópia de imagens e registos, da ordem da colagem, tão sofisticadas quanto elementares, com as quais nos confrontamos diariamente na gigantesca cascata imagética difundida pelos media sociais.

Ao contrário da pretensão de natureza experimental que motivou a luta dos artistas que recorreram, no século passado, à arte da colagem, as imagens col-fi apoiam-se no efeito proto narrativo da colagem (à semelhança do palimpsesto e da estratigrafia arqueológica) e por isso dispensam qualquer necessidade de diferenciação, face ao já feito e apropria imagens diversas sem visar descobrir novos materiais ou composições que exponham ideias avançadas relativas à época que vivemos.

Pese embora a colagem possa sugerir uma preocupação histórica acerca da veracidade ou falsidade das imagens, à eficácia e ao poder relativo à sua utilização, estas minhas imagens não estão preocupadas com essas instâncias e apresentam-se como realidades ficcionadas ou melhor dizendo, ficções reais, tão viáveis e aceitáveis como inaceitáveis e abstrusas; tão eticamente preocupadas quanto antitéticas no seu confronto face ao espectador.


Nesse sentido poderei dizer que estamos perante imagens inúteis pois as representações não estão politicamente relacionadas com eventos cruciais, nem tão pouco visam apresentar o terror ou o maravilhamento da (i)realidade.


Combinando imagens e materiais provenientes de revistas ou da Internet colados sobre cartão reutilizado, tintas de óleo e cores fluorescentes, canetas marcadoras ou Indian ink…, estas composições contrariam a lógica contemporânea da perfeição inerente à superfície polida e brilhante dos ecrãs e a sua “vadiagem inquieta” é apenas um “gesto mínimo” na tentativa de gerar obras simples, diria mesmo, banais.
Outra regra importante deste jogo, que parece não entender as regras, é a de reduzir ao mínimo o consumo de tempo gasto na construção de cada obra. Na maioria das vezes são os movimentos e as estratégias mais fáceis e evidentes que propositadamente, mas sem grande esforço de triagem e critério, conduzem a construção de um “fazer preguiçoso” para alcançar um trabalho básico, rudimentar, primitivo e rude.É no imediatismo e desfaçatez do “fazer preguiçoso” que a urgência destas obras recupera o “fazer da mão”.A colagem é uma superfície que disfarça a tridimensionalidade por via de uma aparente e ilusória bidimensionalidade que continua a ser um meio importante para alcançar uma simplicidade incaracterística e onde se torna possível fazer algumas das afirmações mais controversas, duras e cruas.Ao contrário do que diz Thomas Hirschhorn, eu não “…quero criar a condição para uma Compreensão do Mundo – o Mundo em que vivo…. Fazer Colagens significa criar um Novo Mundo com elementos do Mundo Existente.” Estas colagens não expressam qualquer tipo de resistência, elas são passivamente a expressão de um acordo com a apatia que encontra neste registo uma forma de se revelar.Estas obras são o resultado de um estado de sonolência alerta, que na sua plenitude encerra em si uma qualquer desobediência criativa, fruto de um trabalho insubstancial e até insuficiente, cujas deficiências são visíveis, pois não procuram qualquer tipo de disfarce ou de máscara. O seu escrutínio é aberto e o seu obreiro não tem dúvidas das suas infindáveis dúvidas.Quando há estímulos que pretensiosamente parecem querer ser irreverentes e por vezes surpreendentemente espirituosos, isso pode ser entendido como uma reconquista de algo, da essência multifacetada, aparentemente dividida entre a reflexão e a reacção

Col-fi é uma pesquisa em continuum, que constrói a partir de um estado de profunda vulnerabilidade uma narrativa ficcional, que se tangibiliza na precariedade que se acumula sobre os cartões de papel reutilizado, aguardando a qualquer momento o seu colapso previsível e desejável.
Através deste dispositivo que favorece uma espécie de arte baseada no processo e na subjectividade, introduzindo noções tais como ficção, narrativa e imaginação é possível ver em col-fi um meio híbrido entre as artes visuais e a ficção narrativa a prazo (com data de validade).São ficções que se expandem como imagens desprovidas de qualquer autoridade e que na sua plurividência vão registando marcas de desprezo ou desprezíveis.

Agora sim, de acordo com Hirschhorn, também “Eu gosto da estupidez, da velocidade, da facilidade de fazer colagens”.
É tão simples fazer uma colagem e um dos maiores prazeres é que pode ser feita rapidamente e de forma divertida. Mas como qualquer coisa que diverte, que entretém, tal como a cola que está entre as superfícies que une, constitui um espaço/intervalo invisível e por isso algo que suscita desconfiança. É tudo demasiado simples, demasiado rápido, pouco profundo, pouco sólido e nada sério, o que para muitos não é suficientemente respeitável e tão pouco aceitável. É uma tarefa de crianças. Mas é justamente porque é uma técnica infantil, elementar, que a colagem é muito mais resistente do que aparenta e tal como as crianças também as colagens conseguem facilmente escapar ao controlo, mesmo ao controlo dos seus progenitores.

Como disse anteriormente este não é um trabalho de resistência, o seu poder político reside no carácter apático que persiste e por isso é resistente.
Fazer colagem com origem numa apatia propositada implica uma ausência de pensamento racional e por isso a cabeça é apenas o albergue de um cérebro que contem a potência do fazer. Essa potência é em si mesma aquilo que mais me interessa e que encontra na colagem o seu meio de expressão e de contenção.
A colagem ficcional usa o carácter prosaico inerente à sua técnica (quem nunca fez colagem nalgum momento das suas vidas?) como elemento associativo, universal e aberto a todos, sem qualquer exclusão.As hipotéticas ficções que estes trabalhos pretendem evocar ou convocar são uma colagem, em que as lacunas abrem espaço às dúvidas interpretativas, as rupturas e acumulações funcionam como a gritaria provocada pelos diálogos de personagens tão concretos e reais quanto imperceptíveis, que constituem um mundo imperfeito, partido, estilhaçado, em que só a cola pode fazer segurar e suportar, mesmo que de forma precária.
Resta-nos a cola para dar forma à origem.

+info : LUÍS ALEGRE