NAMELESS DOGLESS

MARGARIDA DIAS : 2019.05.04

NAMELESS DOGLESS MARGARIDA DIAS



04 A 29 MAIO DE 2019 : FOTOGRAFIA

DOGLESS

O cão olha a câmara. Sabe que ela vem para lhe roubar alguma animalidade; e, ainda assim, aceita-a. Do encontro fica um registo singular: focinhos de cão com olhares de homem; silhuetas canídeas recortadas de um horizonte de desamparo; figuras de ostensiva individualidade, quase dignas, ousando reconverter a solidão em estranhamento; e, inclusive, essa exibição extrema de vulnerabilidade que é a exposição de um corpo e da intimidade quase anatómica dos seus detalhes, em patas, ossos ou articulações.

O encontro entre o cão e a câmara sinaliza portanto, num primeiro momento, uma proposta de instabilização dos limites da animalidade. Da dos cães – e logo da nossa. Desengane-se, porém, quem entender este sinal como um convite para lugares de pré-humanidade ou como sugestão de reenvio para uma animalidade feita génese ou origem à qual deveríamos voltar. É que, precisamente, os cães de Margarida Dias não estão no início, atrás de nós ou antes de nós; estão à nossa frente e olham para nós desde o futuro. É daí, de onde estaremos um dia, que nos interpelam. O que é perturbante é que eles parecem já saber daquilo que nós insistimos em não saber: que o desamparo, a que também já se chamou uma heteronímia sem sujeição, pode constituir exercício de liberdade; que a declinação da dignidade em estranhamento é talvez o modo de contornar o tempo vicioso da expectativa, quer dizer, o circuito neurótico da melancolia, da ansiedade e do medo; e que, lacanianamente falando, só viver sem esperança assegura viver sem medo.

Insistimos em desconhecer esse lugar; eles, os cães, já nos olham desde lá; eles e Margarida Dias. Como sempre acontece ao longo da sua obra fotográfica, trata-se de imagens afirmativamente conciliadas com a sua primordialidade, isto é, com a sua corajosa função de nos verem. É por isso que estas imagens que nos vêem só poderiam ter esta dimensão (50×40, 40×30,30×24, 50×50, 60×80) e que qualquer gigantismo seria incompatível com este olho que nos olha e falsificaria essa relação, inclinando o poder de ver para o nosso lado. Ora, aqueles cães estão à nossa espera. Vêem-nos. E o aviso que nos endereçam desde o futuro é este: dogless. Quer dizer, não somos suficientemente cães. Falta cão em nós por manifesta dificuldade de reconhecimento de um desamparo e de um estranhamento que insistimos em perceber mais como condenação do que como possibilidade de reinvenção do circuito dos afectos. Por algum motivo, que sempre desconheceremos, os cães não disponibilizam este aviso diretamente para nós mas apenas a quem aceita ser visto por eles no instante mesmo em que simetricamente os capta; apenas àquele olhar tecnicamente lúcido, louco e terno; olhar de fotógrafa, em suma.

Rui Cunha Martins


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