OLISIPOGRAFÍA

ROSA VELOSO : 2017.11.11

OLISIPOGRAFÍA ROSA VELOSO



11 A 22 NOVEMBRO 2017 : FOTOGRAFIA

Afirma na escolha das suas companhias, pelo lugar e pela luz. Segundo ela “pelas luzes que inventam as suas próprias formas”. E da luz vem a sombra que é o berço da forma.

A sombra acolhe, acama e é aqui trabalhada de forma a acentuar a presença da ténue silhueta , o belo e difuso recorte destas formas únicas.

O Galo barrento no seu berço de sombra.

A pedido da minha amiga fotografa Rosa Veloso fui desafiado a escrever um texto para sua próxima exposiçao no passevite. Não sendo bom de letras,vou fugir à tentação de tentar escrever sobre o que pode ser um desejo seu no trabalho que desenvolve: os processos de gentrificaçao por que passam as grandes cidades; as não-virtudes e as maleitas deste fenómeno de descaracterização, neste caso marcadamente presente na minha amada Lisboa de hoje. Da luz branca que a caracteriza também me vou escapar de dizer.

Guardo assim as poucas letras que tenho, para as utilizar num registo que me soa mais familiar: o meu olhar de pintor sobre o seu olhar de fotografa. A Rosa dispõe os objectos que ama numa mesa que neste caso não é redonda, mas que serve para os seus referentes eleitos se reunirem, talvez também para debaterem designios estéticos, sem dar lugar às suas diferenças hierárquicas comuns, entre as suas distintas formas, e afirma-lhes em pleno a sua dignidade.

Afirma na escolha das suas companhias, pelo lugar e pela luz. Segundo ela “pelas luzes que inventam as suas próprias formas”. E da luz vem a sombra que é o berço da forma. A sombra acolhe, acama e é aqui trabalhada de forma a acentuar a presença da ténue silhueta , o belo e difuso recorte destas formas únicas. E porque estas escolhas nunca são inocentes,surge o icónico galo de Barcelos que também tem uma costela Galega, tal como todas as costelas da Rosa. Este galo eleito, um rei das lendas Lusitanas, é um embaixador dos mais nobres e abalados valores da condição humana. Conta a lenda que contribuiu para fazer a prova de inocência de um peregrino galego, erradamente acusado.

Este em frente do juiz exclamou: “É tao certo eu estar inocente, como certo é que esse galo cantará quando me enforcarem. E não é que o galo, já assado, ergue-se da mesa e cantou, e o galego Livre ficou”. Nestes retratos de naturezas mortas a fazerem lembrar a pintura metafisica o Galo aqui retratado vem vestido de nu.Simplesmente banhado pela argila que também ajudou o criador a esgalhar a maqueta de todos nós. Este galo despido, está vestido da
inocência do acusado, está carregado de uma poética humilde e
agasalhado de simplicidade.

Estas subtis e silenciosas composições fotográficas remetem para a elegância intelectual das pinturas de Giorgio Morandi. São igualmente exímias abstrações formais, considerações éticas e existenciais. O poder expressivo do Galo e destes objectos do quotidiano, retratados por meio de recortes intimistas , filtrados por esta luz, transformam estas fotografias em registos sublimes do absoluto. Elas são um excelente meio e um rico pretexto da Rosa ir até o fim, até ao âmago das coisas por intermédio de um galo barrento que reclama inocência.

Paulo Robalo.Pintor.


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