OS DESCUIDADOS DE DEUS #01 RETRATOS

PAULO ROBALO : 2018.04.14

OS DESCUIDADOSDE DEUS #01 PAULO ROBALO



14 ABRIL A 01 MAIO DE 2018 : PINTURA

Estas figuras são os filhos de um deus menor, de um criador incauto e desatento.São a criação preguiçosa de um humano avacalhado na forma e consequentemente na sua beleza.

Como se o criador napeiro,a despachar ,cria-se uma maqueta do que somos mas de forma negligente e sem brilho. Como se de toda a maneira chaleira,o produto da sua criação acabasse sempre num tosco do que deveria ser. Estas figuras, indignadas, revoltadas, iradas, agastadas, abespinhadas, incomodadas, maltratadas, ultrajadas, foram à nascença dilapidadas do seu ser. Continuam sem embargo, seres inconformados com as injustiças desta desequilibrada ,perversa e desumanizada existência desenhada por Deus sem afia lápis. O pintor , centra–se na delicada riqueza plástica destas enigmáticas figuras de olhar sábio. Opondo-se à pobreza dos princípios de criação apresentados. Acentua a nobreza do seu olhar ,a sua caracterização psicológica,a sua inteligência, os seus dotes e talentos. Para este projecto foram convidados o Musico João Godinho o Sound Designer David Diogo e o escritor Luis Robalo. Partindo dos desenhos e do texto de apresentação do pintor,desenvolveram um processo criativo através das suas sensibilidades e interpretações pessoais.Nasceu assim uma partitura musical que será interpretada ao vivo durante a inauguração da exposição e apresentam -se os textos que complementam e aconchegam esta serie de pintura. Os Músicos pensam assim: Que sons habitam o universo de um ser inacabado? Há harmonia? Narrativa? Intenção? Ou apenas resíduos sonoros, desconexos, involuntários… um sub-produto musical à sua imagem e semelhança.
Esboço.
Criação.
Ruído.

Paulo Robalo


Quando mais perto de ser homem, maior é o abismo da minha desilusão. Um salto para uma queda livre no impossível. A verdade que nego e engano, é que nunca poderei ser homem, e o pior dos castigos é o facto de me entender quase-homem. Vejo-me assim, um ser inacabado, a faltar um nada para ser. Não entanto não. Alguns procuramos o disfarce, a trapaça – a ver se passa – mas a imitação é sempre defeituosa, e mesmo que não pareça, por dentro de nós ficou a parte incompleta. Mesmo que seja executado por um profissional – o figurino que nos disfarça de homens – , alguém atento, descobre facilmente as imperfeições. E somos apontados por todos, alvos de riso, do desprezo. A pior coisa que se pode fazer a um homem é querer ser como ele. Desconfia de imediato, a seguir fica inseguro e defende o território, que diz ser seu, que considera ser toda a extensão de terra que um dia cartografou. Eu queria tanto ser homem. Apesar dos seus momentos – são muitos – de tristeza serem pungentes, às vezes uma dor aguda insuportável de viver, quando se realizam em grandes obras ou grandes pensamentos, efemeramente alegres, gozam do prazer da felicidade, um inexplicável que é um orgasmo do conseguimento. Esse clímax só é dos homens. Nenhum outro ser seja animal, ou vegetal, ainda menos uma pedra, poderá jamais provar essa iguaria. E é isso o que nos falta, aos que estamos tão perto de sermos homens, e que falhamos por vontade de deus. Ele é o culpado da nossa miséria, da sua miséria. Entediou-se com o acto da criação e deixou-a com um final suspenso. Dizem que se cansou, dizem que foi propositado, dizem que nos quis dar a oportunidade de nos completarmos, sublimando-nos. Descansou ao sétimo dia e deprimiu. Desapareceu para parte incerta. E só deu essa oportunidade aos homens.
Nós somos ”Os descuidados de Deus”

Luis Robalo


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