Rápido Loiraça MATA MATA MATA!!! parte II – O Destacamento Vermelho Feminino

EM EXIBIÇÃO
JOÃO FONTE SANTA : 2020.07.11

Rápido Loiraça MATA MATA MATA!!! JOÃO FONTE SANTA



“Bom dia Alice

algum contexto para a exposição:

A exposição chama-se “Rápido Loiraça MATA MATA MATA!!! parte II – O Destacamento Vermelho Feminino” e é uma sequela da individual que fiz em 2009 “Rápido Loiraça MATA MATA MATA!!!” na Galeria Reflexos, no Porto, em 2009, e cujo titulo é uma tradução muito livre de “Faster Pussycat KILL! KILL!”. Na altura tinham nascido a Pandora e a Julieta e eu queria “ver” em que mundo elas, enquanto mulheres, iam crescer, para isso fiz um breve levantamento de representações mediáticas de mulheres ao longo do último século e meio (a tela que viste em casa do Carlos, no Baleal, da mulher acossada por crocodilos era uma dessa exposição). Agora, 11 anos depois, que as miúdas já são adolescentes, a minha ideia é reunir material que as possa ajudar a esmagar o patriarcado.” 

e-mail de João Fonte Santa, 02-07-2020

A atriz Tura Satana, de origem japonesa-americana, deu voz à personagem, a sumptuosa Varla, no filme de 1965 Faster, Pussycat! Kill! Kill!, escrito e realizado por Russ Meyer. Enquadrado na tipologia Série B, o filme foi à época muito criticado pelas feministas da segunda vaga devido à objetificação soft-porno do corpo da mulher, numa conjugação entre sexo e violência. Com o passar do tempo e com a terceira vaga do feminismo, o filme foi reavaliado pelas teóricas feministas e reenquadrado no campo do New Queer Cinema, no início dos anos 90, através de ensaios e artigos da académica e teórica feminista queer B Ruby Rich (University of California, Berkeley e Art Institute of Chicago). Rich refere que foi uma das vozes que se revoltou contra o filme em 1965, mas que, com o passar do tempo, a arte feminista dos anos 70 e o contributo de teóricas feministas – tais como Laura Mulvey e Judith Butler – trouxeram um outro entendimento da nova subjetividade sobre as questões de género, raça, identidade e sexualidade, juntamente com o desenvolvimento da corrente da interseccionalidade. Faster, Pussycat! Kill! Kill! tornou-se num icónico e pioneiro filme do Novo Cinema Queer. As frágeis e sedutoras meninas-mulheres dos filmes da indústria norte-americana tornam-se neste filme mulheres sedutoras implacáveis, independentes e fortes, que matam, metaforicamente, a ideia da fragilidade feminina dependente da força e proteção da masculinidade, vinculada durante décadas através das narrativas cinematográficas (e não só).

Rápido Loiraça MATA MATA MATA!!! parte II – O Destacamento Vermelho Feminino, organiza-se em torno de quatro núcleos de trabalhos.
For they are the party of yesterday. And tomorrow is ours é um núcleo com cerca de 15 pinturas a óleo sobre papel representando mulheres skaters. O título foi apropriado de um discurso de Margaret Thatcher, proferido perante uma audiência de jovens conservadores em Wembley, Londres, 1983. Para João Fonte Santa, esta apropriação que contextualiza a obra tem a intenção de “a atirar de volta ao conservadorismo que o proferiu”. Efeito de boomerang, tática de guerrilha com sentido subversivo, que se relaciona com o pensamento francês, conhecido por “feminismo da diferença”, relevante para Judith Butler e para a terceira vaga do feminismo: aceitar a diferença, para nos introduzirmos nos alicerces do pensamento do sistema falogocêntrico e, a partir daí, reconstruí-lo, minando-o.
Nessa perspetiva e a propósito de skateboarding, o documentário de Carol Dysinger Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) descreve o projeto de integração de jovens e crianças através do ensino de skateboarding em Cabul, no Afeganistão. O empoderamento que a prática do skate incute às crianças, sobretudo às meninas, aliado à aprendizagem da leitura, da escrita e da matemática, induz uma tomada de consciência de si mesmo, de género e de liberdade de expressão.

Outro núcleo, Destacamento Vermelho Feminino, é composto por cerca de trinta aguarelas sobre papel, com título, desenhos e texto apropriados de uma banda desenhada de propaganda maoísta de 1966. A narrativa é de novo sobre a liberdade: relata a história de uma jovem mulher que foge do domínio de um senhor feudal que a escraviza, para se juntar a um destacamento feminino do Exército Vermelho e lutar pela sua liberdade e pela justiça.  Segundo João Fonte Santa, as aguarelas são pastiches coloridos a partir das vinhetas, o texto é integrado no desenho como carimbo e descontextualizado da conjugação texto/imagem da banda desenhada, e funciona, segundo o artista, como “pequenos haikus semi-abstratos”.
Ainda sobre esta série, Fonte Santa salienta a fragilidade das aguarelas “por vezes manchadas, como se fossem páginas de um livro encontradas na rua (faz-me lembrar um pouco o Dom Quixote, onde na introdução o autor diz que a história que vai contar, leu-a num volume em arábico que encontrou na rua – na altura, com medo da Inquisição, os muçulmanos espanhóis atiravam os livros que tinham em árabe para a rua para não serem identificados)”.

Tigre de Papel, uma obra entre a assemblage e a escultura, é uma alusão à expressão atribuída a Mao Tse-Tung que se refere à aparência do exercício do poder, aqui associada à história política portuguesa: a queda de António Oliveira Salazar e o desvanecer de uma mentira, um Presidente de Conselho de Ministros que já não o era, mas que pensava que ainda o era.

Kilroy was Here, obra grafitada sobre a parede, refere o popular grafite dos soldados norte-americanos durante a II Guerra Mundial, como se o artista abrisse uma brecha espacio-temporal e associasse a frase maoísta “O Imperialismo Americano é um Tigre de Papel” ao Kilroy Was Here, ou ao seu desejo de que o sistema patriarcal se transfigure num Tigre de Papel e que desapareça.

Alice Geirinhas, julho de 2020


+info : JOÃO FONTE SANTA