CABINET DOS ESQUECIMENTOS
PAULO ROBALO & CLÁUDIA TEIXEIRA : 2017.11.25
25 NOVEMBRO A 13 DEZEMBRO DE 2017 : FOTOGRAFIA + PINTURA
Será que pintar é estar doente dos olhos?
Pintar é estar doente dos olhos
O Site Specific Cabinet des curiosités, exposição dos esquecimentos, nasceu da necessidade de revisitar o meu trabalho de pintor.
Constatei que necessitava de mergulhar no baú pessoal de obras mais ou menos esquecidas, misturar as presentes, para melhor me posicionar perante o trabalho futuro.
Assim desejei criar num espaço do Bairro Alto, muito amavelmente cedido pelo João Cal, uma casa carregada de memórias e patinas, para encenar visualmente o meu museu privado, o quarto das minhas propostas de maravilhas desalinhadas.
Para pôr de pé esta árdua tarefa convidei o Luis Robalo que com os seus olhos de escritor, que entre um púcaro e outro, frequentaria esse local com a tarefa de escrever uma crónica regular sobre a implementação deste desígnio. Lancei também o desafio à fotografa Claudia Teixeira que fotografou a seu gosto os diferentes estadios da composição do espaço. Num tempo que passou sem noção, permaneci mais de nove meses – entre transportar os objectos escolhidos,pintar de cenário as paredes, montar e desmontar continuamente os desenhos nas paredes ,que iam assim sendo organizados por séries de trabalho. Entretanto consegui começar a desenhar no local outros tantos que me iam inquietando.
Esteve-se muito bem neste gabinete transformado em casa onde se receberam os amigos e que se transformou em atelier onde continuei a tentar resolver o problema que continuamente me atormenta e que adiante digo:
Sou eu a pintar ou é pintura a pintar por mim?
Quando me coloco perante esta pergunta, fico quase sempre sem saber que resposta dar. Mais fico também sem saber para quê?
O Porquê e o para quê?
O que andarei para aqui a fazer, para onde me encaminhar ? que caminhos escolher?
Esta maleita diária sem farol persiste desde o começo e não acaba nunca.
Depois para me refazer desta penumbra e inquietação, pego ansiosamente nos lápis, nas tintas e recomeço a fazer, apago ou não e recomeço. Sobreponho e refaço, insisto e volto á procura e volto a fazer.
Raras vezes ao percorrer este caminho encontro o lugar, talvez utópico, onde mora o bem estar e a sensação de ter cumprido uma missão que não sei bem qual é. Fico aliviado completo e feliz, momentaneamente feliz.
Procuro sem saber bem o que procurar, mas procuro o objectivo supremo de atingir um sublime, esse lugar distante que de momento ainda não tive o prazer chegar.
Depois do turbilhão recorrente das inquietações, vem a necessidade de dar um sentido mais conceptual a este processo e fico contente com a ideia menos simples de que afinal o desígnio dos artistas é redesenhar a existência.
Soa-me grandioso, soa-me bem.
Logo de seguida desequilibra-me de novo a tempestade, os pesadelos, e atormenta-me a constatação da enorme pequenez perante tão dimensionada e complexa tarefa.
Sou invadido pela grandeza dos mestres que muito admiro:
Os Velasquez ; os Goyas; os Paolo Ucellos ;Os Turner, e os mais recentes: o esquecido Giorgio Morandi; o Francis Bacon; o Anselm kieffer, o David Hockney;o desaparecido de forma prematura Juan Munoz; o Anish kapoor; o Kabacov; O Boltanski,;o exímio desenhador william kentridge; o matérico Miquel Barceló, e voltam os Veermers, os Giottos e todos os outros Caravagios que nunca caberiam aqui dizer todos.
Que sentido faz afinal pintar e desenhar quando eles já o fizeram de uma maneira tão sublime e magistral?
É a obstinação que obriga a continuar este caminho sinuoso.
E não é que nesta auto-estrada do inferno dos sentidos, cruzo-me com frequência com os novos profetas, os curandeiros da arte, os doutrinadores e outros evangelizadores plásticos?
Estes aprumados senhores muito seguros de si que impõem as suas moralidades estéticas e intelectuais irrevogáveis.
Pintar quando a pintura morreu?
Figurativo, figurativo matérico ? pintura orgânica? Horror! Aberração! A condição humana? Outra vez ? Tema tão batido e tão desadequado nos dias que correm, tão fora das novas linguagens artísticas e geo-estratégicas emergentes.
Que fazer a seguir perante estes doutos e sapientes, o mainstream actual?
Estes senhores e outros apeliados de novos curas , os curandeiros da nova ordem da estética que tão bem escrevem que até não chegamos a entender o que tanto e fundamental nos têm a dizer.
A muje segundo eles,o topo do topo ,os himalais das presentes tendências , é precisamente seguir as tendências emergentes, exercitar o olhar fora das fronteiras do verosímil , ir ao encontro das trans das trans vanguardas abstracionistas, do racionalismo trans abstrato, da arte versus ciência e do minimalismo, sobretudo do minimalismo, que não se deve nunca confundir com o mínimo mas que deve estar sempre associado aquilo que fica bem mas nunca se percebe bem.
A Arte para os iluminados.
E pergunto aos iluminados, quantas vezes a pintura já morreu? Quantas vez já ressuscitou e quantas mais irá ressuscitar?
Milagrosamente outra vez, volto ao inicio, lá vem de novo o chamamento dos odores do óleo de linhaça, da cera de abelha, dos vernizes, da goma laca, do alcatrão, do pó de pedra da gestualidade, dos riscos e dos inúmeros acidentes que se transformam em deliberadas intenções criativas.
Uffff tudo isto é uma abissal canseira, associada ao facto da minha mãe sempre me ter dito que eu não tenho brilho nenhum.
Devo terminar este não queixume de forma semelhante ao seu começo, sem acrescentar nem mais saber que dizer, expressando publicamente a minha grande profunda admiração e fascínio pelo caos e até mais do que pela organização do caos.
E fica aqui também apresentado, mostrado, desenhado e pintado, um prazer dos bons, um dos maiores que conheço, e entre os maiores desejos, o desejo partilhado de ser inútil.
De toda a maneira chaleira persisto em seguir..
Por tudo isto, pelo que há de vir, doem-me os olhos de tanto crer continuar a olhar e a pintar…
Será que Pintar é estar doente dos olhos?
Paulo Robalo