CONTAS

EM EXIBIÇÃO
MANUEL SAN-PAYO : 2020.03.07

CONTAS MANUEL SAN-PAYO




07 > 28MAR 2020 : PINTURA/DESENHO

No princípio era o osso. Ou a pedra, que é o osso da terra. Se se instala no corpo, há-de trazer a dor ou a loucura que é preciso expelir. Fora dele, é instrumento universal de contas e de contos – uma narrativa de tempo lento onde cabem todas as narrativas, a interrogação ao que está para diante, a interpelação ao invisível, a mais antiga maneira registada de quantificar o que nos rodeia e de o organizarmos simbolicamente.

Na Roma Antiga, às contas do ábaco, cuja história vinha já de trás, chamavam calculi. O calculus, essa pequena pedra que está na base da solução de problemas numéricos, mas também na da avaliação de grandezas e na conjectura de probabilidades, é um dado muito concreto na nossa relação mental com o mundo. E na física também: «Concreção que se cria na bexiga, nos rins ou no fígado», estipula o dicionário.

Ao colocarem-se entre o abstracto e o concreto, entre o corpo e o espaço, entre o infinitesimal e o infinito, as pedras contam a história mais antiga que conhecemos e imaginamos — a cena primitiva do planeta — e fornecem a medida para deitarmos contas à vida. Queremos que a nossa vida seja eterna como a das pedras, que também voltam ao pó de onde vieram para de novo se erguerem na paisagem, que a memória da nossa passagem pela terra dure como a delas. Por esta razão, os judeus deixam pedras – e não flores – ao visitarem as sepulturas dos entes queridos. Por esta razão temos histórias gravadas e grafadas na pedra desde que a nossa espécie tem memória de si e sentiu necessidade de organizar o mundo para sobreviver: traçar na pedra com pedra, partir pedra para chegar à forma ou ao pigmento, a um resultado que indagamos e nos escapa – o sagrado, tal como a arte, vão pelo caminho das pedras.
A última fase do trabalho de Manuel San-Payo regressa de forma explícita a esse caminho, quer no seu próprio percurso, num testar de meios e linguagens contra a pedra de toque que toda a arte confronta e desafia, quer no jogo de agilidade e equilíbrio com que, desde a infância do mundo, apreendemos no recreio coisas mais fundas do que nas aulas:

– a pedra ganha à tesoura, a tesoura corta o papel, mas o papel embrulha a pedra – para organizar o caminho da terra ao céu, precisamos, dependendo da natureza do chão, de um giz, um carvão ou um pau afiado. Riscar e jogar a pedra para diante. Arriscar o salto difícil para não ficar na linha já traçada nem cair para o indesejável. Acrescentar, de pedra em pedra, contas, traços e contos ao velho jogo do mundo. E mais além.

Ana Maria Pereirinha


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